sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Sabiá Laranjeira - Mário Celso Rodrigues


Ao meu amigo maestro  Paulo Tomchaca

Meu pássaro predileto...
Parece haver algo em comum
entre eu e o Sabiá, sempre nos demos muito bem...
Sabiá e eu ou eu e o Sabiá,
com detalhes não sei explicar, mas,
seu cantar no fim da tarde tem sempre uma finalidade...
Medito, escrevo; a noite vem e nem percebo.
No arrebol desponta o sol
e nos galhos das muitas árvores me saúda
o Sabiá Laranjeira em bemol... Sustenido...
No alegro percebo, temos algo em comum,
eu poeta, ele tenor...
Juntos e felizes louvamos o Grande Criador.

domingo, 13 de setembro de 2015

A Caridade - Gióia Jr.

I Coríntios 13

Se eu soubesse falar a linguagem dos santos
e a dos homens também; se dons tivesse tantos...
não tendo caridade, os mais preciosos dons
seriam como o bronze a desfazer-se em sons;
como um címbalo estranho, eu louco vibraria.
Se a mim me fosse dado o dom da profecia;
se a minha poderosa e viva inteligência
retivesse em seu cofre os mistérios da ciência;
se eu tivesse em meu peito a fé viva e sagrada,
não tendo a caridade, eu não teria nada.

Se, em gesto de renúncia, em atitudes nobres,
meu haveres, meus bens eu desse para os pobres;
se, em sacrifício ideal e intenção verdadeira,
entregasse o meu corpo às línguas da fogueira,
porém, sem caridade, em maneira impensada,
minhas dores cruéis não valeriam nada.

Longânima e benigna e sem jactância e sem
esse ar sacrificial e sofredor de quem,
oferecendo, busca, e, ofertando, deseja,
ela é sem interesse e também sem inveja.
Não se ira, não suspeita a santa caridade,
abomina a injustiça e proclama a verdade.
Seu seio é, para o bem, o mais precioso cofre;
tudo suporta, crê, espera e tudo sofre.
Se existe profecia, o seu dia aparece
e ela se cumpre. É como a flor, vive e fenece;
se existe língua, um dia, arde como os incêndios,
e outro dia, se faz nas cinzas dos compêndios.

A ciência é um edifício, um mundo que desaba,
porém a caridade, essa jamais se acaba!
Em parte vemos hoje e expomos o conceito,
mas um dia virá em que, tudo perfeito,
o que hoje o mundo vê de um modo parcial,
amanhã, poderá ver na forma total...
Um dia eu fui menino, o mundo pequenino
que eu via era somente um mundo de menino...
hoje compreendo mais e desde que, sereno,
meço e observo, deixei as coisas de pequeno.
Hoje é como se a nossa ilusão se espelhasse,
mas, um dia, porém, veremos face a face.
E o que conheço em parte (a parte que hei vivido)
conhecerei por fim como fui conhecido.
Se ainda os homens estão corajosos, de pé,
devemos à Esperança e à Caridade e à Fé.
Permanecem as três virtudes, na verdade,
mas a maior das três se chama: "A Caridade"!


Poema escrito por Gióia Jr. no ano de 1949




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

As notas de teu olhar - Mário Celso Rodrigues



No de repente de uma  angustia... Do nada surge uma canção.
Envolvente melodia  que de manso transforma sentimentos,
brisa morna em noite gélida... Aquece...Conforta, toca na emoção.
Nos transporta aos sonhos de outrora a canção que hora nos embala.

Nos braços das notas musicais somos conduzidos,
não mais as bravias ondas da aflição...O clima glacial que amordaça.
Agora o calor que brilha nos olhos, o coração em curtos saltos
como que em brincadeiras de criança nos floridos jardins da praça.

Não importa a escala das notas... Importa teu olhar sereno
buscando o afeto e o calor de meu  sentimento...
O mais puro, a certeza do meu amor pleno.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Minha Escolha! - Tereza Wilhelm




Eu elegi ao Deus que em tudo me fascina
De atos arrojados a coisas pequeninas.
Ele está no raiozinho do luar de prata
Também no pipilar dos pássaros na mata,
No sussurro da brisa quando morre o dia
E o crepúsculo em si, doce melancolia.
Achei-O no crispar das vagas ululantes
Nas batalhas do mar bravio, estonteante.
No vendaval que acoita e estremece a cidade,
No estalar do trovão em meio a tempestade.
Faz-se presente até no murmúrio da fonte,
E nas cascatas de luz da neve sobre o monte.
Esta' em todo lugar em todos os momentos,
Quem pode compreender Seus muitos pensamentos?
Deixei-me cativar; busquei o Seu abrigo,
Fiz d'Ele meu Senhor, meu Rei e meu Amigo.


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Homem Feliz - Mário Celso Rodrigues


         Por ser um homem feliz em dias de angústias, sou grato a Deus em ter nascido em um lar onde Jesus Cristo era o primeiro e habitava no coração dos que me geraram... As lágrimas que agora rolam de mansinho pela minha surrada face, tem em suas gotas a expressão da saudade e em sua constância os momentos da felicidade.


     Sou um homem feliz mesmo quando a borrasca se agiganta...Rolam lágrimas de manso pela minha face surrada, são doces saudades que brotam quando na lembrança vem a história de um povo escolhido que atravessa todo um mar sem nem mesmo os pés molharem. Aumentam as lágrimas quando me vem a lembrança a voz de quem as contava.

     Sou um homem feliz mesmo quando na mesa não há pão... Nunca faltaram, só suposição... O mesmo dito de um certo profeta que em sua oração dizia nunca deixar de glorificar e exultar o Deus de sua salvação... Escutei deles esta que ainda hoje é minha predileta leitura.

     Sou um homem feliz pois aprendi desde muito cedo que jamais o mundo melhoraria, já era mau em seus dias,  que  cresceríamos - não sou só, choro e oro por alguém que as mesmas histórias, deles escutou – Que a razão da maldade era desde o Gênesis  e que em Apocalipse tudo iria mudar... Dos olhos de minha mãe lágrimas desceram quando a vida do Salvador... Seu nascimento... Vida... Morte e ressurreição ela nos narrou.

     Sou um homem feliz porque tenho certezas...  Aprendi em tenra idade o caminho certo e, jamais me desviarei dele.  Não me importa a maldade do mundo, não me interessa a ganancia dos governos que oprimem... Tenho uma certeza e conheço as promessas daquEle que por mim sofreu... morreu... ressurreto é, que enquanto na terra eu estiver, é meu amigo e enxuga as terríveis lágrimas da tristeza ou amargura que pela minha surrada face queira correr...   
     
     Sou um homem feliz porque de minha infância tenho saudades, eram doces as histórias que meus pais contavam, eram história plenas do amor daquEle que nos criou ."Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele"(Provérbios 22:6).

     Sou um homem feliz porque houveram momentos de disciplina – jamais me esquecerei da fina vara da goiabeira – “ O que retém a vara aborrece seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina” (Provérbios 13: 24).


     Eles partiram, não mais ouvirei suas histórias, suas aventuras e a mão operosa de Deus sobre suas vidas, os milagres, as lágrimas de suas tristezas enxutas pelo Pai... As lágrimas de suas alegrias pelas orações respondidas. Minha maior alegria é saber que não só eu e meu irmão temos deles ricas lembranças, mas, quantos que pelo testemunho de vida dos dois tiveram suas vidas mudadas... Um legado que não há preço que pague

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Kairós - Mário Celso Rodrigues

Alegro, andante, moderato.

Um agudo – pouco mais suave.

Clave de sol, sustenido, colchéia.

Poesia,  incomparável harmonia.

Primeiro, segundo soprano,

nos faz sonhar o contralto..

Pássaro planando nas alturas,

águas cristalinas que deslizam no riacho,

sol que repousa no berço das montanhas,

lua que desponta no horizonte dos mares.

Como perfume das rosas,

 é o louvor que sobe aos ares.

No momento exato, tempo certo,

revivo e como pluma

subo aos céus

KAIRÓS

quando cantas,

como metamorfose, tempo certo,

 momento exato,

 transformas

 em celeste poesia, esquecidos dissabores.

Leva-nos também a cantar,

                                                      em doce e alegre harmonia,

ao nosso Deus louvores.

sábado, 23 de maio de 2015

Exuberâncias - Mário Celso Rodrigues

       
  Mais de meio século, palhas secas, águas turvas correndo no leito de um riacho exuberante de outrora. Não mais a curva do caminho que me anunciava o inesperado... Os ventos que agora acariciam minha face são mais amenos, mormaços... Uma tarde em que o sol com respeito se declina dizendo precisar dar lugar ao luar que surge. No alto, em algum galho procurando aconchego,  o sabiá em seu trinado diz-me uma boa tarde e que em momentos me acompanhará no silêncio de seu cantar...

    Mais de meio século... Tudo bem diferente... Tudo muito vivo... Exuberâncias que o tempo insiste em apagar de minhas lembranças. Memórias vivas que não sairão de minha alma enquanto forças houverem para sorver o nobre gás – essência da vida. Mais de meio século, nem tudo está diferente, ainda há um sentimento que tentam mudar, trazê-lo a modernidade... Continuo amando e sendo amado como na antiguidade... Não importa a idade, as mesmas borboletas que bailavam se cortejando por entre rosas, continuam nos salões de meu jardim... Posso ouvir o barulho das muitas águas que agitadas se apressam a caminho dos oceanos.

        Mais de meio século... Todas as manhãs... Tudo... Não tão diferente.  Não só um, mas, todos os tenores das florestas... Também os barítonos sabiás e, os baixos, contraltos e sopranos. Orquestras e corais... Mais de meio século... Tudo muito igual quando se tem o vivo e ardoroso sentimento do amor impulsionando o coração... O Sol brilha forte e a lua, sua enamorada, passeiam de mãos dadas por entre arrebóis.

        Se foram mais de meio século. Leves toques na porta do meu coração, insisto, não quero abrir... A saudade entra, a canção que sai de seus lábios vai tomando espaço e já domina todo o ambiente... Mais de meio século, os caramanchões de “bougainvilleas”, vermelhos tal a cor da paixão. A doce voz de minha mãe... Enérgicos e suaves comandos de meu pai... Meu irmão, que ingrata saudade me fere a alma. Na glória passeando por celestes caminhos, uns verei no porvir... Outros... Meus olhos embargam a voz quando em minhas súplicas clamo ao Pai o querer vê-los também.

        Não sei se mais meio século viverei, feliz me sinto nos tantos que já vivi... Voltar e revivê-los, impossível... Nos é destinado pelo Sábio Criador somente uma vez passarmos pela vida e... amar... boas sementes plantar... doces frutos colher e deles nos deliciar. Agradeço a Deus as saudades que hoje sinto... Até meus últimos instantes quero amar, não como antigamente, mas, como sempre... Primaveras e saudades, que sejam fartos nos jardins de todos os que amei e dos que ainda amarei.


        E, se no caminhar pela estrada florida com destino ao centenário, o Criador resolver interromper o meu jornadear... Irei feliz como um menino, pezinhos descalços... Cabelos desalinhados pelos ventos do transporte e, no coro celestial, serei barítono e enlevarei minha voz e cantarei louvores e salmodiarei por indefinidos decênios... Cinquentenários... Centenários... Amor eterno... Vida eterna junto do poderoso Deus!