quarta-feira, 17 de setembro de 2014

REMINISCENCIAS I - Mário Celso Rodrigues



Foto Flight Aware















Rua Capitão Paulo,
da casa a varanda era o palco
de brincadeiras e sonhos,
condutor de locomotivas,
ou quem sabe aviador?
Num cepo de madeira, duas manivelas,
eram freio e acelerador;
na boca um zumbido estranho
imitava o ronco do motor.
Não havia confusão – às vezes era um trem,
de quando  em quando um avião.

Na estrada do Engenho Novo;
padaria nova inaugurou.
E, quando dava na veneta
Dia amanhecendo – sol vermelho no arrebol
Feliz ia correndo – dinheiro enrolado na mão
Comprar um litro de leite
E um saboroso e quentinho pão.

Meu irmão, que implicante era,
pegava no pé, sem tréguas sequer.
Em cerradas e infantes disputas
Mais velho e mais forte eu tinha que ser,
mais forte e esperto queria ele o poder:
-Meninos parem com isso -
Enérgica e doce de minha mãe era a voz...
Depois de dura carraspana,
voltava à velha máquina de costura,
pois n’alguma calça quase pronta
tinha que terminar o “cós”.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

HABACUQUE - Israel Belo de Azevedo

                                            
                                          
  
Ainda que a vida hoje não floresça,
partida por perda que traz do abismo a beira,
roída na raiz pela dor da doença,
que prontidão atenta e absoluta requeira.

                  Ainda que entre os meus, a dissonância cresça,
                  minha alma se seque como estéril figueira.
                  Do que tenho apenas reste uma rala esteira,       
                  e meu próximo momento eu não conheça.

Eu orarei ao Pai para que me sustenha,
eu esperarei que seu sustento me venha,
até que Ele me sussurre suas respostas.

                  Porque sei que toda a minha angústia Ele sente,
                  porque sinto que comigo Ele está presente,
                  Eu agora me lanço sobre suas costas.

sábado, 6 de setembro de 2014

CANÇÃO DO EXÍLIO - Antonio Gonçalves Dias



Minha terra tem palmeiras,
onde canta o sabiá.
As aves que aqui gorjeiam,
não gorjeiam como lá.

                             Nosso céu tem mais estrelas,
                             nossas várzeas tem mais flores,
                             nossos bosques tem mais vidas,
                             nossa vida mais amores. 

                                                                         Em cismar sozinho à noite.
                                                                         Mas prazer encontro eu lá,
                                                                         minha terra tem palmeiras
                                                                         onde canta o sabiá.
 
Minha terra tem primores,
que tais não encontro eu cá,
em cismar sozinho a noite,
Mas prazer encontro eu lá.

                                     Minha terra tem palmeiras,
                                     onde canta o sabiá.

                                                                          Não permita Deus que eu morra,
                                                                          sem que eu volte para lá.
                                                                          Sem que desfrute os primores,
                                                                          que não encontro por cá.

Sem que inda aviste as palmeiras,
onde canta o sabiá.  

A PÁTRIA - Olavo Bilac


 Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
 Criança! não verás nenhum país como este!
 Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
 A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
 É um seio de mãe a transbordar carinhos.
 Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
 Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
 Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
 Vê que grande extensão de matas, onde impera
 Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
 Boa terra! jamais negou a quem trabalha
 O pão que mata a fome, o teto que agasalha…
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
 Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
 Criança! não verás país nenhum como este:
 Imita na grandeza a terra em que nasceste!

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

DESCIDA DE CRISTO EM CAMPINA GRANDE - Mário Celso Rodrigues

Inspirada no poema de Gióia Jr. “Descida de Cristo em São Paulo




Tendo resolvido
que deveria descer em Campina Grande ,
assim pensou e assim fez.
Não escolheu, no entanto,
o Parque do Povo ou o Açude Novo
que é onde se realizam os grandes comícios
e as grandes concentrações.
Não fez nenhuma propaganda no rádio, na televisão e nos jornais.
Não viu nenhuma necessidade em preparar a campanha de sua vinda
com frases de “suspense”:
“ele vem vindo, logo ele vem, aguardem a sua vinda”,
simplesmente dispensou todos esses artifícios.
Não quis cores vermelhas ou amarelas ou lilazes
nos disseminados cartazes de “out door”,
ficaria mal ao lado de anúncios “da Caranguejo e da Vogue”.
Nem mesmo volantes em papel-jornal amarelo e cor-de-rosa aceitou.
E resolveu que viria só,
nada de secretários e grupos de preparação
e equipes de propaganda
e pequenos coros de anjos de gravatas borboletas
e orquestras sanfônicas e bandas de forró.
Veio só.
Veio com seus próprios recursos,
 pela sua própria força,
sem se utilizar de luxuosos jatos executivos
ou de farfalhantes e nervosos helicópteros.
Não deu nenhuma volta espetaculosa no céu azul
e ensolarado da cidade, não aceitou chuva de pétalas de rosas
nem papéis picados doirados e prateados,
holofotes e desfiles.

Desceu anonimamente
no bairro do Jeremias
e foi conversar com os moradores
que comentavam as novelas e coisas do cotidiano
 à porta de casa, após o almoço,
(Será preciso esclarecer que Ele falava nordestinês
 sem sotaque aramaico?)
As donas de casa nem de leve o confundiram
com os camelôs da política, que fazem proselitismo
às vésperas das eleições,
nem com os que vêm para semear discórdia ou ódio.

Como os seus irmãos camponeses
dois mil anos atrás,
caíram de joelhos e ficaram maravilhados.
E reiniciaram, com aquele mesmo entusiasmo
do Cristianismo primitivo
o anúncio ao mundo do Evangelho sempre novo
como no passado.

Antes de ir ao Catolé, Mirante ou Alto Branco,
Cristo falou primeiro aos simples.
E como lembrança Campinense dessa visita de Jesus,
o povo que andava em trevas,
viu uma grande luz!!!

domingo, 1 de junho de 2014

A Paineira - Mário Celso Rodrigues

Não estavas na parábola de Jotão...
Eras uma paineira-Ceiba speciosa -
assim os da ciência te chamam, sem
valor para o vil metal... Não eras, do
Líbano, o cedro. Teus galhos, aos sabiás,
não ofereciam conforto tal os imponentes Jatobás.

Não importa como na beira da estrada tu foste nascer... Florescer!
Na densa floresta, ao lado das nobres ou dos humildes
arbustos... Mesmo adornada pela generosidade outonal,
não alcançarias reconhecimento... Triste seria teu fenecer.

Domingo ensolarado... Em alguns outros e, mais outros...
Tua sombra, na beira da estrada, revigora a certeza do porvir.
Servos... Filhos do mesmo que te criou, na proteção de suas copas,
a Deus louvores entoou... As boas novas ressoou...

Já não mais existes, o cruel progresso te derrubou...
Não respeitaram nem mesmo tua idade...
Paineira, pela providencia, na beira da estrada
grande foi teu valor, lá o Senhor te plantou.

Não mais sob as copas de frondosa árvore...
Mas em templo erguido, Deus tem sido louvado,
A salvação que só há em Cristo, proclamado...
No bairro, a cada dia, as portas do inferno aniquilado.  



Poema escrito em alusão a uma árvore (paineira), onde, debaixo de seus galhos se deu início a Primeira Igreja Batista do São João – Guarulhos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Em meu lugar - Jilton Morais

















EM MEU LUGAR

Pesada cruz às costas,
esbofeteado, caído, ...
sem mais poder andar...

Chegando com a cruz ao Calvário,
sofrido, cansado, ensanguentado,
para assim morrer em meu lugar...
Pregado ao madeiro por mãos ímpias,
blasfemado, insultado, injuriado...
Ele assume o meu lugar.

Cravos a traspassar seu corpo,
braços estendidos,
mãos feridas, pés feridos,
Ele sofre pra me salvar...

Assim esteve no Calvário
Jesus, meu Senhor!
Perdão pediu pra os algozes,
salvou o malfeitor penitente,
silenciou os insultos,
fez do centurião um crente.

Quanta dor Ele sofreu,
até poder ao Pai falar:
“Consumado Está!”
Era o meio de eu me reconciliar
com Deus;
de o seu perdão obter...
Era a minha salvação,
sendo providenciada.

Quando penso no Calvário,
no Cristo que ali sofreu,
sou-lhe mais e mais agradecido
porque aquele lugar era meu.

 



Do livro: Ilustrações e poemas para diferentes ocasiões
De Jilton Morais