domingo, 19 de outubro de 2014

O Piloto - Autor desconhecido

Poemas  de aviação.



Piloto não faz retorno, faz curva de reversão,
 Piloto não vira a esquina, faz curva padrão;
 Piloto não faz baliza, faz procedimento,
 Piloto não olha o painel, confere o instrumento;
 Piloto não conserta, faz manutenção,
 Piloto não dá tranco, realiza auto rotação;
 Piloto jamais entra, ingressa!
 Tem doutrina, é padrão, não faz nada com pressa...
 Piloto não procura espaço para parar, agenda um slot,
 Piloto não para num ponto, pousa no spot.
 Piloto não liga, starta!
 Piloto não olha o mapa, confere a carta...
 Piloto não anda na banguela, voa no glide.
 Piloto não se aproxima, faz um QDMike!
 Então, preste atenção com quem você "anda"... ...
 Piloto comanda, motorista dirige!

 Boa noite!

domingo, 28 de setembro de 2014

ORQUESTRA - Mário Celso Rodrigues

A canção que a orquestra toca
transporta-me para junto de ti...
Ouço a melodia de tua voz. 
Por campos floridos viajo,
abrindo caminho por entre
doirados girassóis.
Me acompanha sentimentos...
Carências afetivas,
e, saudades do calor 
que me transmite teu falar.

Corro veloz,
impulsionado pela melodia
que comparo à sua voz.
No horizonte espero te encontrar,
braços abertos, 
transbordando de carinhos...
Quentes lábios que emudecem os meus,
beijos calados, apaixonados. 
Ardendo no peito,
a leve música do teu falar.

Não mais da orquestra a canção,
mas sentimentos, olhares trocados,
envolvo-te com ternura, recebo afeto...
Fazes-me reviver... Crer... Teu amor...
Somente a Deus agradecer.  

    



DESEJO - Gonçalves Dias

Ah! que eu não morra!
Sem provar ao menos sequer
por um instante nesta vida
amor igual ao meu.

Dá, Senhor Deus
que eu sobre a terra encontre,
um anjo, uma mulher, uma obra tua
que sinta o meu sentir.

Uma alma que me entenda
irmã da minha
que escute meu silêncio
que me siga
dos ares na amplidão

Que em laços estreitos
unidas, juntas, presas
deixando a terra e o lodo...
Aos céus remontem
num êxtases de amor.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Tempo - Laurindo Rabelo da Silva

Deus pede estrita conta do meu tempo,
é forçoso do tempo a dar conta:
Mas, como dar sem tempo tanta conta!
Eu que gastei sem conta tanto tempo!

Para ter minha conta feita a tempo;
dado me foi bom tempo e não fiz conta,
não quis,    sobrando tempo fazer conta,
quero hoje fazer conta e falta tempo.!

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta,
não gasteis esse tempo em passa-tempo,
cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com o seu tempo
fizessem desse tempo alguma conta,
não chorariam sem conta o não ter tempo

TEMPO - Olavo Bilac

Sou o tempo que passa, que passa,
sem princípio sem fim sem medida!
Vai levando a ventura e a desgraça,
vai levando as vaidades da vida!

A  correr de segundo a segundo,
vou formando os minutos que correm...
Formo as horas que passam no mundo,
formo os anos que nascem e morrem

Ninguém pode evitar os meus danos...
Vou correndo, sereno e constante:
Desse modo de cem em cem anos,
formo um século e passo a diante.

Trabalhar porque a vida é pequena,
e não há para o tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O Livro e a América - Castro Alves

Talhado para as grandezas,
pra crescer, criar, subir,
o Novo Mundo nos músculos
sente a seiva do porvir.
- Estatuários de colossos -
Cansados doutros esboços
disse um dia Jeová:
"Vai Colombo, abre a cortina
da minha eterna oficina...
Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
o continente desperta
no concerto universal,
dos oceanos em tropa
um - traz-lhe as artes da Europa,
outro - as bagas do Ceilão...
E os Andes petrificados.
Como braços levantados,
lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Oh grande Deus!
"As cataratas - pra terra,
as estrelas - para os céus".
"Lá, do polo sobre as plagas,
o seu rebanho de vagas
vai o mar apascentar..."
"Eu quero marchar com os ventos,
com os mundos... com os firmamentos!!!"
E Deus responde - "Marchar"!

"Marchar!... Mas como?... Da Grécia,
nos dóricos Partenons,
a mil deuses levantando
mil marmóreos Panteons?...
Marchar com a espada de Roma
- Leoa de ruiva coma.
Saciando o ódio profundo...
De presa enorme no chão,
saciando o ódio profundo...
- Com as garras nas mãos do mundo.
- Com os dentes no coração?...

"Marchar!... Mas com a Alemanha
na tirania feudal,
levantando uma montanha
em cada uma catedral?...
Não!...Nem templos feitos de ossos
nem gládios a cavar fossos,
São degraus do progredir...
Lá brada Cesar morrendo:
"No pugilato tremendo
Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do século das luzes!
Filhos da grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
tereis um livro na mão:
O livro - esse audaz guerreiro
que conquista o mundo inteiro
sem nunca ter waterloo...
Elo de pensamentos,
que abrira a gruta dos ventos
donde a igualdade voou...!

Por uma fatalidade
dessas que descem do além,
o século que viu Colombro,
viu  Guttemberg também.
Quando no tosco estaleiro
da Alemanha o velho obreiro
a ave da imprensa gerou...
O genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
e a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
desta sede de saber,
como as aves do deserto
- As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo na alma
É gérmen - que faz a palma.
É chuva - que faz o mar.

Vós que o templo das ideias.
Largo - abris às multidões,
para o  batismo luminoso
das grandes revoluções,
agora que o trem de ferro
acorda o tigre no cerro
e espanta os caboclos nús,
fazei desse "rei dos ventos".
- Ginete dos pensamentos,
- Arauto da grande luz...!

Bravo! a quem salva o futuro,
fecundando a multidão!
Num poema amortalhada
nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz" o Novo Mundo
num brado de Briareu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu...!








quarta-feira, 17 de setembro de 2014

REMINISCENCIAS I - Mário Celso Rodrigues



Foto Flight Aware















Rua Capitão Paulo,
da casa a varanda era o palco
de brincadeiras e sonhos,
condutor de locomotivas,
ou quem sabe aviador?
Num cepo de madeira, duas manivelas,
eram freio e acelerador;
na boca um zumbido estranho
imitava o ronco do motor.
Não havia confusão – às vezes era um trem,
de quando  em quando um avião.

Na estrada do Engenho Novo;
padaria nova inaugurou.
E, quando dava na veneta
Dia amanhecendo – sol vermelho no arrebol
Feliz ia correndo – dinheiro enrolado na mão
Comprar um litro de leite
E um saboroso e quentinho pão.

Meu irmão, que implicante era,
pegava no pé, sem tréguas sequer.
Em cerradas e infantes disputas
Mais velho e mais forte eu tinha que ser,
mais forte e esperto queria ele o poder:
-Meninos parem com isso -
Enérgica e doce de minha mãe era a voz...
Depois de dura carraspana,
voltava à velha máquina de costura,
pois n’alguma calça quase pronta
tinha que terminar o “cós”.